terça-feira, 3 de março de 2009

Dizem que o Bill Gates é inteligente. Será que ele é mesmo inteligente?

...

Liberdade Ilusória

[Era carnaval. Ou tinha sido? Eu estava escutando Clube da Esquina, passeando pela avenida mais famosa desta... cidade, às 4 horas da madrugada de uma Quarta-Feira de Cinzas. Ele veio, cruzando esquinas... Umas três pessoas, entre elas dois seguranças de um prédio em construção, assistiram ao ocorrido.]

- Pode me dar licença, senhor? É que eu tô de liberdade condicional faz uma semana e eu tenho uma família pra sustentar, será que você não pode me ajudar com alguma quantia aí... ?
- Hum... [Tirei os fones do ouvido. Cutuquei o bolso. Tinha uns dez reais em trocados... mais uma moeda.] Posso sim, ó... Te dar essa moeda. Um Real.
- Ah... Tá brinc... Haha... Num tem mais nada pra me dar não?
- Hum... Não. Não tenho não. Só esse um Real. Vou até voltar à pé pra casa...
- É assim então?
- É assim...
- Tá bom então, meu filho... Muito obrigado...
- Nada...

[Volto a escutar Clube da Esquina. Volto à pé pra casa. Impossível pegar ônibus essa hora... aqui.]


Fábio

[Na orla da praia. Ele passa de cueca samba-canção. Escolhe a gente: eu mais dois amigos. E para.]

- Velho, as pessoas não tão me escutando! Não tão memo!
- Oi?
- Num tão... Num tão...
- Oi?
- Preciso de dois conto que tá me faltando prá comprá um marmitex... Pode arranjá pra mim? Dois conto, velho? Dois conto?
- [...] E esse dinheiro aí que tá na tua mão?
- Tenho só esses trocado aqui ó [senta e joga no chão uma nota de um Real e umas moedas], é pra tomar um ônibus pra Praia Grande.
[Ele tem um sotaque carioca forçado.]
- Onde tem marmitex vendendo nesse horário? [20 horas e 40 minutos... de um Domingo.]
- Alí ó. Tem um amigo meu que vai conseguir pra mim... Tá me devendo.

[Ele apontou para um restaurante chique, de esquina com a avenida mais famosa desta... cidade.]

- Mas alí não tem marmitex, mano.
- Não? Tem sim, velho, vai, dois conto aí, vai dizer que tú num tem? Dois conto, velho, dois conto...
- Tenho não.
- Dois conto, velho, vai... Dois conto...
- Não tenho. Tô pobre. Não tenho...
- Vou te contar uma história: tava num jantar de natal com meu pai, aí tava nóis na mesa e ele veio e me perguntou: "Já conseguiu se arranjá na vida?". Aí eu respondi o que não devia: disse que sim, velho. Sabe, a gente pensa que sabe tudo, e não presta atenção nos mais velhos. Eles são mais sábios, velho. Escuta bem o que eu tô te falando, tem que ser inteligente, velho, escuta bem: presta atenção no que dizem os mais velhos! Agora, velho, por favor! Eu tô precisando de dois conto prá comprá...
- Não tenho, mano. Não posso. É sério, vou até voltá a pé pra casa...
- Tá bom, velho, tá bom. A melhor coisa que tu poderia me dar não era os dois conto, e tu me deu: foi tua atenção, velho. Tu me deu tua atenção. Mas é isso aí, velho, tem que ser inteligente. Bill Gates por exemplo... Dizem que o Bill Gates é inteligente. Será que ele é memo inteligente? Eu não sei se ele é inteligente. TU é inteligente, velho. Eu vim aqui e pedi os dois conto, aí tu sacou a parada e me perguntou onde eu ia comprar o marmitex... Tu é inteligente, e velho...
- É...
- Meu nome é Fabio. Qual o teu?
- Fraudelino.
- Tu tem orkut?
- Ah... ahahahaha... haha...
- MSN?
- Tenho sim, amigo, mas não vou te dar meu orkut não... [Piscada que nem senti e já saiu, risada levemente sarcástica.]
- Precisa não, velho. Não precisa passar o teu orkut, sabe por quê? Porque eu te acho...
- Ah... [Outra piscada. De "malandro que é malandro".]
- Tenha uma boa noite, Fraudelino...
- Você também, Fábio...
- Ah, só uma pergunta, antes de ir embora: você sabia que o chão vai subir, partir ao meio, e as estrelas do céu vão cair?

[...]

[Foi embora para um lado.]

- Viva. Orkut atingindo todas as classes sociais...

[Eu voltei à pé, por outro. Uns minutos depois. Despedi-me dos meus amigos. Tinha alguns reais no bolso, mas preferi economizar o pouco que me sobrou depois de extravazar no carnaval. Cheguei em casa e lembrei do final daquele filme de David Lynch em que só o Homem Elefante não era um monstro. Aquela cena em que ele finalmente deitou para dormir.]
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