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"Viareggio perto de Pisa (Itália),
23 de Abril de 1903"
"Obras de arte são de uma solidão infinita, e nada pode passar tão longe de alcançá-las quanto a crítica. Apenas o amor pode compreendê-las, conservá-las e ser justo em relação a elas. Dê razão sempre a si mesmo e a seu sentimento, diante de qualquer discussão, debate e introdução; se o senhor estiver errado, o crescimento natural de sua vida íntima o levará lentamente, com o tempo, a outros conhecimentos. Permita a suas avaliações seguir o desenvolvimento próprio, tranquilo e sem pertubação, algo que, como todo avanço, precisa vir de dentro e não pode ser forçado nem apressado por nada. Tudo está em deixar amadurecer e então dar a luz. Deixar cada impressão, cada semente de um sentimento germinar por completo dentro de si, na escuridão do indizível e do inconsciente, em um ponto inalcançável para o próprio entendimento, e esperar com profunda humildade e paciência a hora do nascimento de uma nova clareza: só isso se chama viver artisticamente, tanto na compreensão quanto na criação.
Não há nenhuma medida de tempo nesse caso, um ano de vida nada vale, e mesmo dez anos não são nada. Ser artista significa: não calcular nem contar; amadurecer como uma árvore que não apressa sua seiva e permanece confiante durante as tempestades da primavera, sem o temor de que o verão não possa vir depois. Ele vem apesar de tudo. Mas só chega para os pacientes, para os que estão ali como se a eternidade se encontrasse diante deles, com toda a amplidão e a serenidade, sem preocupação alguma. Aprendo isto diariamente, aprendo em meio a dores às quais sou grato: A paciência é tudo!"
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"Viver e escrever no cio."
"De fato a vivência artística está tão inacreditavelmente próxima da vivência sexual, de sua dor e de seu prazer, que os dois fenômenos na verdade constituem apenas formas diversas de um mesmo anseio e de uma mesma ventura. Se, em vez de cio, pudéssemos dizer sexo, em um sentido ELEVADO, AMPLO, PURO, não afetado por nenhuma suspeita equivocada por parte da igreja, a sua arte seria grandiosa e infinitamente importante. Sua força poética é intensa como um impulso primitivo, ela possui alguns ritmos próprios violentos e jorra como que de uma montanha.
Contudo, parece que essa força nem sempre é sincera e sem vaidade. (Mas essa é mesmo uma das mais difíceis provações para o criador: ele precisa permanecer sempre inconsciente, desprevenido de suas melhores virtudes, caso não queira tirar delas a inocência e a integridade!) Quando então, irrompendo em seu ser, essa força chega á sexualidade, não encontra ali um ser humano inteiramente puro, como necessitaria encontrar. Há ali um mundo sexual que não é totalmente amadurecido e puro, um mundo que não é suficientemente humano, apenas viril, que é cio, embriaguez e intranquilidade, carregado com os velhos preconceitos e vaidades com que o homem deformou e sobrecarregou sobre o amor. Como ele ama apenas enquanto homem, não enquanto ser humano, há em suas sensações sexuais algo restrito, aparentemente selvagem, enraivecido, temporário, efêmero. Essa arte não é destituída de máculas, ela é caracterizada pelo tempo e pela paixão, pouca coisa dela há de durar e permanecer. (Mas a maioria das formas de arte é assim!) Apesar disso, porém, é possível alegrar-se profundamente com o que nela é grandioso, sem se perder com isso e sem se tornar um adepto daquele mundo dehmeliano*, tão infinitamente inquieto, recheado de adultérios e distúrbios, distante dos destinos reais, que causam mais sofrimentos do que essas pertubações temporárias, mas também dão mais ocasião para a grandeza e mais coragem para a eternidade."
R. M. Rilke
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Richard Dehmel (1863 -1920), escritor e poeta alemão ligado ao Naturalismo.
Noite Transfiguradade Richard Dehmel
"Duas pessoas caminham por um desfolhado, frio bosque,
a lua marcha com eles, eles olham para ela.
A lua marcha acima dos altos carvalhos,
nenhuma nuvem turva a luz do céu,
no qual as negras pontas dos galhos se estendem.
A voz de uma mulher diz:
Eu trago uma criança [no ventre], e não é sua,
eu ando em pecado perto de você.
Eu cometi uma dura ofensa contra mim mesma.
Eu não acreditava mais que poderia ser feliz
e tive ainda um forte desejo
por algo que desse sentido à minha vida: a alegria de ser mãe e seu trabalho; assim eu me atrevi,
assim eu deixei meu sexo
ser tomado por um homem estranho.
Agora a vida tem sua vingança:
agora eu conheci você, sim, você.
Ela caminha com passos desajeitados.
Ela olha para cima; a lua marcha próxima.
Seu escuro aspecto inunda-se em luz.
A voz de um homem diz:
A criança que você concebeu,
não deve ser oprimida por sua alma,
oh veja, como claramente o universo brilha!
Há um brilho em torno de tudo,
Você flutua comigo sobre um mar frio,
mas um calor especial tremula
de você em mim, de mim em você.
Ele vai transfigurar a criança do estranho,
você a transforma para mim, como se ela fosse minha;
você trouxe o brilho para mim,
você fez uma criança para mim mesmo.
Ele a agarra pelos seus vigorosos quadris,
Seus hálitos se beijam no vento.
Duas pessoas caminham por uma imponente, brilhante noite."
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[Tem sempre uma explicação. Mas nada explica tudo.]
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