domingo, 29 de março de 2009

"Ele cuspiu em mim. Eu dei um bofetão nele..." ou Ney Explica!

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A Globo promete levar ao ar, em breve, mais um de seus especiais "Por Toda a Minha Vida". Desta vez, o foco é Cazuza e seu relacionamento com Ney Matogrosso. À coluna de Mônica Bergamo na Folha de S. Paulo, o cantor e compositor diz não entender por que não foi consultado para o programa e revela detalhes íntimos da relação - coisas que só ele sabe.

"Ele cuspiu em mim. Eu dei um bofetão nele e disse: 'Ai, sai daqui... drogado!'. E eu também era drogado". Assim Ney Matogrosso descreve a briga final entre ele e Cazuza, depois de um sumiço de três dias do futuro vocalista do Barão Vermelho, que reapareceu acompanhado por um traficante de cocaína.

Ney assume que consumia drogas com Cazuza, mas deixa claro que não gostava de pó - e que não aguentou conviver com o descontrole do namorado em relação à droga.

Para ele, Cazuza escondia seu melhor lado, um lado que quase ninguém conhecia, carinhoso, "bonitinho", como ele define: "Eu falava: 'Você esconde o melhor de você. Você fica mostrando essa coisa escrota sua, que é uma mentira, uma máscara que você está usando."

Anos depois da morte do cantor, Ney tenta entender por que também não foi atingido pela AIDS, doença que matou Cazuza. "Cerca de 80% dos meus amigos foram levados, e eu tô aqui. Eu estive exposto da mesma maneira que eles", relata.

"Gostaria muito de saber o que há comigo que impediu essa doença de me pegar. Deus? Não acho que ele esteja preocupado com minha sexualidade", finaliza.

[Fonte: IG.com.br]



[.]


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...da resposta a uma mensagem estimulante (3)

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"Acabamos de superar um grande obstáculo, certo?
Então não há razão para me pedir perdão.
Estamos mais fortalecidos agora.
Somos eu e você.

Contra uma multidão, se for preciso."

[Sou eu. É você. Somos eu e você.]

"And when the spring arrived, we were taken by surprise
When the flows under our feet bled into the sea
And nothing was left for you and me..."
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quarta-feira, 25 de março de 2009

"Avoado" (ou "Perrrdido de Amorrr!")

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[de 05/08/2007... para um outro blog, extinto, também de Baixa Frequência - com o perdão do trocadilho]

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No ônibus, enquanto ouve operários falando sobre fôtêból e comêda na mesa, preparada pela mulher. "Todos tem seu refúgio. Menos aquela mulher. E aquela. E aquela."

Em casa, enquanto sua mãe supervaloriza a performance da Íris Stefanelli no TV Fama. "Você a ama acima de tudo. Isso, sua mãe. A Íris... tá aproveitando, né?"

No semi-trampo, enquanto o chefe lhe diz "Você precisa amadudecer para ontem, muleque" e arrota um "Bufff" fétido bem na sua cara. "É um processo lento para alguns... AAAnd I'm outta here."

No cinema multiplex/teatro, quando pisam em falso no degrau que está ao seu lado, tal como ele havia feito em momentos passados. "O que eu não quero para mim, eu não faço para os outros. Não ria, Avoado! Não ria!"

Tudo rende estudos filosóficos para ele. Tudo o desconcentra. Mas seu caminho de reflexão é, na verdade, um ciclo de reflexão que só se completa quando o foco torna a ser sua própria condição:

"Eu estou fud... opa, perrrdido de amorrr, e não tenho esses olhos para mais ninguém. Ao mesmo tempo que tenho para todo mundo. Compreeeeeende? Estou olhando para o mundo, porque assim quero e assim sinto, mas meus olhos não mais me pertencem. Vejo meu amor e é como se não tivesse o menos absoluto controle sobre eles. Quer dizer, não seria bem controle... De certo não temos poder algum sobre nossos olhos, mas aprendemos bastante sobre eles com o passar do tempo e acabamos pegando certa manha de brincar com esse não-poder. É uma defesa tão automática... tão óbvia... tão enraizada. Luto o quanto posso para me desfazer dela. É uma defesa inútil. Talvez o melhor a fazer seja mesmo ter um amor.

Pelo menos um."
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A boy with a guitar.

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Ele me disse para não acreditar tanto no que eu digo.
Sempre me pego pensando nisso, desde então.
Agora me sinto mais à vontade com as palavras.
Tanto que deixo a crença se esvair.
E ela acaba escapulindo para as minhas ações.
Agora acredito além das palavras.
O que é bem satisfatório ao coraçãozinho.

E quando estou errado, faço como Rilke Explica(!), que é pra continuar o processo. Como diz aquela musica do Milton Nascimento, "você ainda pensa e é melhor do que nada", mas enfim, trato sempre de reciclar meu pensamento. Ainda bem que não ajo como há três anos atrás. E o meu alívio deve ser maior daqui a três anos.

Entendo, de uma vez por todas, como um objetivo para minha vida, não mais como objetivo de um coletivo, de uma nação ou da humanidade. É sim escolha. E quando necessário, será luta.

Numa conversa que tivermos, em vez de gritar que você, você aí, mesmo lendo este blog, não tem idéia do que se passa aqui, como sempre, olharei para fora e ouvirei de você o que está acontecendo aí.

Tudo o que quiser me contar. Se também quiser ouvir... [Tá difícil...]

[Minha escolha. É mais simples do que parece.]
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domingo, 22 de março de 2009

Existem...

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Erros.
E erros grosseiros.

Acidentes de percurso.
E desvios premeditados.

Inconsequências sutis.
E estudos mentais.

Aprendi com todos da mesma maneira.
E aprendi a distingui-los.

É exatamente no momento da perda da inocência
que se faz a decisão mais importante de sua vida.

A que custo?
Tudo fica TÃO mais fácil num livro
semi-ou-todo-autobiográfico-póstumo.

Que nada.
A minha decisão eu já tomei de criança.
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sexta-feira, 20 de março de 2009

"Every kind of love...

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Or at least my kind of love,
must be an imaginary love.... to start with..."


Guess that can explain the rain waiting walking game... and...
Schubert? Oh no.

A boy with a guitar.

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segunda-feira, 16 de março de 2009

Não-Re-Espelho

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Não exatamente especial.
Não explicavelmente esquecido.
Não essencialmente entendido.

Pouco desenvolvido.

[Amor e desperdício.
Não há mais motivos no caminho.]
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sábado, 14 de março de 2009

Rilke Explica!

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"Viareggio perto de Pisa (Itália),
23 de Abril de 1903"

"Obras de arte são de uma solidão infinita, e nada pode passar tão longe de alcançá-las quanto a crítica. Apenas o amor pode compreendê-las, conservá-las e ser justo em relação a elas. Dê razão sempre a si mesmo e a seu sentimento, diante de qualquer discussão, debate e introdução; se o senhor estiver errado, o crescimento natural de sua vida íntima o levará lentamente, com o tempo, a outros conhecimentos. Permita a suas avaliações seguir o desenvolvimento próprio, tranquilo e sem pertubação, algo que, como todo avanço, precisa vir de dentro e não pode ser forçado nem apressado por nada. Tudo está em deixar amadurecer e então dar a luz. Deixar cada impressão, cada semente de um sentimento germinar por completo dentro de si, na escuridão do indizível e do inconsciente, em um ponto inalcançável para o próprio entendimento, e esperar com profunda humildade e paciência a hora do nascimento de uma nova clareza: só isso se chama viver artisticamente, tanto na compreensão quanto na criação.

Não há nenhuma medida de tempo nesse caso, um ano de vida nada vale, e mesmo dez anos não são nada. Ser artista significa: não calcular nem contar; amadurecer como uma árvore que não apressa sua seiva e permanece confiante durante as tempestades da primavera, sem o temor de que o verão não possa vir depois. Ele vem apesar de tudo. Mas só chega para os pacientes, para os que estão ali como se a eternidade se encontrasse diante deles, com toda a amplidão e a serenidade, sem preocupação alguma. Aprendo isto diariamente, aprendo em meio a dores às quais sou grato: A paciência é tudo!"

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"Viver e escrever no cio."

"De fato a vivência artística está tão inacreditavelmente próxima da vivência sexual, de sua dor e de seu prazer, que os dois fenômenos na verdade constituem apenas formas diversas de um mesmo anseio e de uma mesma ventura. Se, em vez de cio, pudéssemos dizer sexo, em um sentido ELEVADO, AMPLO, PURO, não afetado por nenhuma suspeita equivocada por parte da igreja, a sua arte seria grandiosa e infinitamente importante. Sua força poética é intensa como um impulso primitivo, ela possui alguns ritmos próprios violentos e jorra como que de uma montanha.

Contudo, parece que essa força nem sempre é sincera e sem vaidade. (Mas essa é mesmo uma das mais difíceis provações para o criador: ele precisa permanecer sempre inconsciente, desprevenido de suas melhores virtudes, caso não queira tirar delas a inocência e a integridade!) Quando então, irrompendo em seu ser, essa força chega á sexualidade, não encontra ali um ser humano inteiramente puro, como necessitaria encontrar. Há ali um mundo sexual que não é totalmente amadurecido e puro, um mundo que não é suficientemente humano, apenas viril, que é cio, embriaguez e intranquilidade, carregado com os velhos preconceitos e vaidades com que o homem deformou e sobrecarregou sobre o amor. Como ele ama apenas enquanto homem, não enquanto ser humano, há em suas sensações sexuais algo restrito, aparentemente selvagem, enraivecido, temporário, efêmero. Essa arte não é destituída de máculas, ela é caracterizada pelo tempo e pela paixão, pouca coisa dela há de durar e permanecer. (Mas a maioria das formas de arte é assim!) Apesar disso, porém, é possível alegrar-se profundamente com o que nela é grandioso, sem se perder com isso e sem se tornar um adepto daquele mundo dehmeliano*, tão infinitamente inquieto, recheado de adultérios e distúrbios, distante dos destinos reais, que causam mais sofrimentos do que essas pertubações temporárias, mas também dão mais ocasião para a grandeza e mais coragem para a eternidade."

R. M. Rilke

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*Richard Dehmel (1863 -1920), escritor e poeta alemão ligado ao Naturalismo.

Noite Transfigurada

de Richard Dehmel

"Duas pessoas caminham por um desfolhado, frio bosque,
a lua marcha com eles, eles olham para ela.
A lua marcha acima dos altos carvalhos,
nenhuma nuvem turva a luz do céu,
no qual as negras pontas dos galhos se estendem.
A voz de uma mulher diz:

Eu trago uma criança [no ventre], e não é sua,
eu ando em pecado perto de você.
Eu cometi uma dura ofensa contra mim mesma.
Eu não acreditava mais que poderia ser feliz
e tive ainda um forte desejo
por algo que desse sentido à minha vida: a alegria de ser mãe e seu trabalho; assim eu me atrevi,
assim eu deixei meu sexo
ser tomado por um homem estranho.
Agora a vida tem sua vingança:
agora eu conheci você, sim, você.

Ela caminha com passos desajeitados.
Ela olha para cima; a lua marcha próxima.
Seu escuro aspecto inunda-se em luz.
A voz de um homem diz:

A criança que você concebeu,
não deve ser oprimida por sua alma,
oh veja, como claramente o universo brilha!
Há um brilho em torno de tudo,
Você flutua comigo sobre um mar frio,
mas um calor especial tremula
de você em mim, de mim em você.
Ele vai transfigurar a criança do estranho,
você a transforma para mim, como se ela fosse minha;
você trouxe o brilho para mim,
você fez uma criança para mim mesmo.

Ele a agarra pelos seus vigorosos quadris,
Seus hálitos se beijam no vento.
Duas pessoas caminham por uma imponente, brilhante noite."

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[Tem sempre uma explicação. Mas nada explica tudo.]

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domingo, 8 de março de 2009

Em Qualquer Lugar

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É de contrariar tendências do mundo pós-moderno que são(?) tidas como certeza para este século. Ou apenas uma mudança de perspectiva. Uma brasileira espancada e esfaqueada supostamente por ser brasileira (ou que inventou todo o caso e essa justificativa para fazer escarcéu na imprensa - o que seria pior, numa análise sociológica?), e logo os comunicadores apontaram uma conexão do ocorrido com leis antiimigração e novos planos de governo adotados por alguns países desenvolvidos, incluindo Inglaterra e Estados Unidos, que visam estimular a política interna com geração de empregos e movimentação de capital, mão-de-obra e matéria-prima dentro de seu próprio país.

Ou seja: vem a mídia com uma provável tentativa de ser o instrumento principal de uma redefinição de globalização, um conceito à distância, hiper-real. “Nacionalismo aumenta! Será o fim do sonho americano, ou de algum outro sonho estrangeiro?” Uma espécie de castração: “Está perigoso. Olhe, mas não toque.” Ou algo tecnologicamente mais avançado: “Busque alternativas virtuais... É como se tocasse, mas não toca de fato... e é mais seguro.” Um alarme falso, mas quem se importa? O foco no medo do desconhecido, nas fobias, uma tentativa de bloquear a esperança e os vôos altos em busca de um mundo fraterno, com problemas muito sérios a resolver (a questão ambiental, por exemplo, nada mais global nesta ou em qualquer outra era), é uma alternativa fácil de abordagem. Já ficou antiquada. Extremamente antiética.

Coberturas de casos como o de Paula Oliveira desvirtuam diversos conceitos importantes e emergentes sobre questões como Crimes de Ódio e Anticidadania e aproveitam-se de uma situação mundial vulnerável para resgatar sentimentos desgastados. De certa forma, com tantas possibilidades de chegarmos mais perto de uma reavaliação da moral, optamos por aguçar nossa insensibilidade com todas as informações que recebemos sobre o que se passa no mundo. Subdesenvolvidos se autoflagelam, e firmes e fortes ficam os partidos e grupos de “extrema”, que silenciosamente contribuem com sua parcela para manter a desordem mundial.

[Redações não mudam o mundo.]
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tudo culpa da sua cabeça.

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não era vazio existencial.
porque AGORA você o conheceu.
maldito dia seguinte.

[drama queen!]
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terça-feira, 3 de março de 2009

Dizem que o Bill Gates é inteligente. Será que ele é mesmo inteligente?

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Liberdade Ilusória

[Era carnaval. Ou tinha sido? Eu estava escutando Clube da Esquina, passeando pela avenida mais famosa desta... cidade, às 4 horas da madrugada de uma Quarta-Feira de Cinzas. Ele veio, cruzando esquinas... Umas três pessoas, entre elas dois seguranças de um prédio em construção, assistiram ao ocorrido.]

- Pode me dar licença, senhor? É que eu tô de liberdade condicional faz uma semana e eu tenho uma família pra sustentar, será que você não pode me ajudar com alguma quantia aí... ?
- Hum... [Tirei os fones do ouvido. Cutuquei o bolso. Tinha uns dez reais em trocados... mais uma moeda.] Posso sim, ó... Te dar essa moeda. Um Real.
- Ah... Tá brinc... Haha... Num tem mais nada pra me dar não?
- Hum... Não. Não tenho não. Só esse um Real. Vou até voltar à pé pra casa...
- É assim então?
- É assim...
- Tá bom então, meu filho... Muito obrigado...
- Nada...

[Volto a escutar Clube da Esquina. Volto à pé pra casa. Impossível pegar ônibus essa hora... aqui.]


Fábio

[Na orla da praia. Ele passa de cueca samba-canção. Escolhe a gente: eu mais dois amigos. E para.]

- Velho, as pessoas não tão me escutando! Não tão memo!
- Oi?
- Num tão... Num tão...
- Oi?
- Preciso de dois conto que tá me faltando prá comprá um marmitex... Pode arranjá pra mim? Dois conto, velho? Dois conto?
- [...] E esse dinheiro aí que tá na tua mão?
- Tenho só esses trocado aqui ó [senta e joga no chão uma nota de um Real e umas moedas], é pra tomar um ônibus pra Praia Grande.
[Ele tem um sotaque carioca forçado.]
- Onde tem marmitex vendendo nesse horário? [20 horas e 40 minutos... de um Domingo.]
- Alí ó. Tem um amigo meu que vai conseguir pra mim... Tá me devendo.

[Ele apontou para um restaurante chique, de esquina com a avenida mais famosa desta... cidade.]

- Mas alí não tem marmitex, mano.
- Não? Tem sim, velho, vai, dois conto aí, vai dizer que tú num tem? Dois conto, velho, dois conto...
- Tenho não.
- Dois conto, velho, vai... Dois conto...
- Não tenho. Tô pobre. Não tenho...
- Vou te contar uma história: tava num jantar de natal com meu pai, aí tava nóis na mesa e ele veio e me perguntou: "Já conseguiu se arranjá na vida?". Aí eu respondi o que não devia: disse que sim, velho. Sabe, a gente pensa que sabe tudo, e não presta atenção nos mais velhos. Eles são mais sábios, velho. Escuta bem o que eu tô te falando, tem que ser inteligente, velho, escuta bem: presta atenção no que dizem os mais velhos! Agora, velho, por favor! Eu tô precisando de dois conto prá comprá...
- Não tenho, mano. Não posso. É sério, vou até voltá a pé pra casa...
- Tá bom, velho, tá bom. A melhor coisa que tu poderia me dar não era os dois conto, e tu me deu: foi tua atenção, velho. Tu me deu tua atenção. Mas é isso aí, velho, tem que ser inteligente. Bill Gates por exemplo... Dizem que o Bill Gates é inteligente. Será que ele é memo inteligente? Eu não sei se ele é inteligente. TU é inteligente, velho. Eu vim aqui e pedi os dois conto, aí tu sacou a parada e me perguntou onde eu ia comprar o marmitex... Tu é inteligente, e velho...
- É...
- Meu nome é Fabio. Qual o teu?
- Fraudelino.
- Tu tem orkut?
- Ah... ahahahaha... haha...
- MSN?
- Tenho sim, amigo, mas não vou te dar meu orkut não... [Piscada que nem senti e já saiu, risada levemente sarcástica.]
- Precisa não, velho. Não precisa passar o teu orkut, sabe por quê? Porque eu te acho...
- Ah... [Outra piscada. De "malandro que é malandro".]
- Tenha uma boa noite, Fraudelino...
- Você também, Fábio...
- Ah, só uma pergunta, antes de ir embora: você sabia que o chão vai subir, partir ao meio, e as estrelas do céu vão cair?

[...]

[Foi embora para um lado.]

- Viva. Orkut atingindo todas as classes sociais...

[Eu voltei à pé, por outro. Uns minutos depois. Despedi-me dos meus amigos. Tinha alguns reais no bolso, mas preferi economizar o pouco que me sobrou depois de extravazar no carnaval. Cheguei em casa e lembrei do final daquele filme de David Lynch em que só o Homem Elefante não era um monstro. Aquela cena em que ele finalmente deitou para dormir.]
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